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segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Duplo Reconhecimento

Lúcia demorou um pouco para notar Dona Flora. Havia entrado na loja de roupas de cama com o objetivo certo de comprar aquele jogo de lençóis, somente e nada mais que ele. Blindara seus olhos e ouvidos contra qualquer oferta sedutora, dessas que fazem a cliente comprar o dobro do que planejara e ainda sair achando que economizou.
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Toda a preparação foi logo desarmada. Dona Flora, uma senhora magrinha e baixinha, de cabelos pretos e anelados, pouco abaixo do queixo, aparentava ter tido uma criação sem riqueza material. Não usava óculos. Muito gentil e educada, sim, mas havia algo mais. Admirada, Lúcia percebeu que Dona Flora portava-se com a "distinção natural" de uma alma que conhece o seu valor, assim como o de outrem. Poderia certamente ter sido uma rainha em vida anterior, tamanha a serenidade e dignidade que sua presença trasmitia.
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Encantada e tocada, Lúcia pôs-se a devanear sobre a auspiciosidade daquele encontro, afinal não é sempre que se esbarra com uma rainha em pleno shopping center. E quando já concluíra a compra e preparava-se para se despedir e seguir seu rumo, ouviu de Dona Flora as seguintes palavras:
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"Moça, você é muito simpática, viu? Um amor de pessoa. É tão bom quando a gente atende alguém assim. Claro que atendemos todo mundo bem, mas tem pessoas que dão gosto! Foi um prazer, viu?"
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Lúcia sorriu largo, agradeceu muito e foi embora. Não devolveu o elogio na mesma medida e nem contou sobre o que estivera pensando minutos antes, por receio de parecer forçada... Mas saiu da loja feliz da vida.
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*Baseado em fatos reais.

domingo, 11 de dezembro de 2011

Andanças


Caminhar tinha um gostinho de vida de verdade que poucos pareciam entender. Havia uma alquimia curadora entre o cheiro do chão no calor escaldante, o ar pesado e úmido e sua respiração, aos poucos pausada e profunda. O cansaço das pernas trazia-lhe a serenidade de quem sabe: estou aqui. Essa presença se confirmava nas papoulas vermelhas do canteiro na rua, nas orquídeas violeta dos condomínios de elite, nos olhares absortos do povo simples que como ela caminhava, anônimo, seguindo seus destinos invisíveis.

Nessas andanças, romanceava sua cidade. Antecipava a diversão de ultrapassar cada obstáculo do caminho, imaginando o que vinha pela frente e fazendo pequenas alterações de rota, em busca das ruas mais bonitas e arborizadas, para passar por dentro de um parque ou escolher uma via menos deserta. As calçadas tornavam-se testemunhas, confidentes silenciosas de seus sentimentos mais guardados. Fizera amizade com elas, há muito. Lembravam-lhe dos dias conflituosos, do medo da rua, das pequenas vitórias e também dos tropeções, como daquela vez em que caíra retinha no chão de cimento, somente amparada pelas mãos. Um homem aproximou-se correndo e limpou suas mãos com as dele, afeto e cuidado simples que se daria a uma criança. Ela riu, por dentro.

Descobrira o prazer de descobrir uma nova cidade dentro da sua - quantas coisas são perdidas quando se anda de carro! Atravessar uma ponte a pé, por exemplo, revela um rio muito mais bonito. Pensava na sorte que tinha de estar experienciando realmente a vida. Pois, para ela, era assim: até o céu a pé tinha outra cor.

Quando perguntada sobre o que pensava dessa vida de andarilha, disse:

"Caminhar é um ser pequena que é ser grande. Ser livre, sem limites. É se misturar com o ar e com o céu, enquanto o corpo leva aonde se quer ir."